Cannabis Medicinal

Canabidiol antes de cirurgia: precisa parar o CBD antes da anestesia?

Quem utiliza Cannabis medicinal pode ter uma dúvida importante ao se preparar para um procedimento: é necessário parar o canabidiol antes de uma cirurgia?

A resposta não é igual para todas as pessoas.

O CBD pode interagir com medicamentos utilizados durante o período perioperatório, incluindo alguns anestésicos, sedativos e analgésicos. Além disso, o produto utilizado pode conter outros canabinoides, como THC, que apresentam efeitos diferentes do canabidiol.

Por isso, o mais importante é informar ao cirurgião e ao anestesiologista sobre o uso de CBD antes do procedimento.

Atualmente, as diretrizes não estabelecem um único período de suspensão válido para todos os pacientes e produtos. A decisão depende da formulação utilizada, da dose, da frequência, do motivo do tratamento e do tipo de cirurgia.

Neste artigo, você vai entender como o canabidiol pode interferir na cirurgia e na anestesia, quando pode ser necessário ajustar o tratamento e quais informações devem ser comunicadas à equipe médica.

Pode tomar canabidiol antes de uma cirurgia?

Não existe uma recomendação universal dizendo que todos os pacientes precisam suspender CBD antes de qualquer cirurgia.

As diretrizes da American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine (ASRA) recomendam que todos os pacientes sejam questionados sobre o uso de Cannabis e canabinoides antes de procedimentos cirúrgicos, incluindo:

  • qual produto utilizam;

  • quantidade;

  • frequência;

  • via de administração;

  • horário da última dose.

Essas informações ajudam o anestesiologista a avaliar possíveis riscos e ajustar o plano anestésico quando necessário.

Portanto, se você utiliza óleo de canabidiol, gummies ou outra formulação, leve essas informações para a consulta pré-operatória.

 

Precisa parar o CBD antes da cirurgia?

Nem sempre.

As evidências científicas ainda são insuficientes para estabelecer um período universal de suspensão do CBD.

As diretrizes da ASRA destacam que diferentes recomendações já foram propostas na literatura, variando de alguns dias até períodos mais longos, mas reconhecem que os dados disponíveis ainda são limitados.

Além disso, interromper abruptamente um tratamento com CBD também pode ser inadequado em algumas situações.

Isso é especialmente relevante quando o canabidiol é utilizado para controlar condições como determinadas formas de epilepsia.

As próprias diretrizes da ASRA alertam que produtos farmacêuticos de CBD utilizados como antiepilépticos não devem ser interrompidos abruptamente no período perioperatório.

Por isso, a decisão deve ser feita pelo médico responsável.

Por que o anestesiologista precisa saber que você usa CBD?

Porque os canabinoides podem influenciar medicamentos e processos importantes durante a anestesia.

O CBD pode interferir em enzimas do fígado responsáveis pela metabolização de diversos medicamentos.

Entre elas estão:

  • CYP3A4;

  • CYP2C19;

  • CYP2B6;

  • CYP2D6.

Essas mesmas vias participam do metabolismo de medicamentos utilizados no período perioperatório, incluindo alguns:

  • anestésicos;

  • benzodiazepínicos;

  • opioides;

  • analgésicos.

Revisões sobre cuidados perioperatórios apontam interações potenciais entre canabinoides e medicamentos como propofol, midazolam, diazepam, fentanil, cetamina e alguns opioides.

Isso não significa que essas combinações sejam automaticamente proibidas.

Significa que o anestesiologista precisa conhecer o uso do CBD para avaliar o contexto individual.

 

CBD pode interferir na anestesia?

Existe essa possibilidade.

A literatura científica ainda apresenta resultados heterogêneos sobre a interação entre canabinoides e anestésicos.

Alguns estudos e relatos sugerem alterações na quantidade de anestésicos necessária em usuários de Cannabis, enquanto outros resultados são diferentes dependendo do canabinoide, produto e padrão de consumo.

Uma revisão recente destacou que CBD, THC e outros canabinoides podem interagir com mecanismos envolvidos na anestesia geral, mas também ressaltou que as evidências humanas ainda são limitadas e nem sempre consistentes.

Portanto, não é correto afirmar que o CBD necessariamente “aumenta” ou “diminui” a anestesia em todas as pessoas.

CBD e propofol podem interagir?

O propofol é um dos medicamentos frequentemente utilizados para indução ou sedação durante procedimentos.

Existem estudos mostrando que pessoas que utilizam Cannabis podem necessitar de quantidades diferentes de propofol em determinadas situações, mas grande parte desses dados envolve Cannabis em geral e não CBD isolado.

Além disso, CBD pode interferir em enzimas envolvidas na metabolização do propofol, o que cria uma possibilidade farmacológica de interação.

A relevância clínica varia e deve ser avaliada pelo anestesiologista.

CBD pode aumentar a sedação?

Pode haver efeito somatório em determinadas combinações.

CBD pode causar:

  • sonolência;

  • fadiga;

  • redução do estado de alerta;

em algumas pessoas.

Por isso, quando associado a medicamentos sedativos, benzodiazepínicos, opioides ou anestésicos, pode haver necessidade de maior atenção.

Esse é um dos motivos para informar toda a lista de medicamentos e produtos utilizados antes da cirurgia.

Veja também nosso conteúdo sobre quais remédios podem interagir com CBD.

Full Spectrum exige atenção adicional antes de cirurgia?

Sim.

Um produto Full Spectrum pode conter THC, enquanto um produto Broad Spectrum é formulado para remover ou reduzir o THC a níveis não detectáveis conforme o método analítico.

O THC possui efeitos diferentes do CBD, especialmente sobre:

  • frequência cardíaca;

  • pressão arterial;

  • cognição;

  • sistema nervoso.

As diretrizes perioperatórias demonstram preocupação principalmente com uso recente de Cannabis contendo THC, especialmente quando existe intoxicação aguda.

Por isso, o anestesiologista precisa saber se o produto utilizado contém:

  • CBD;

  • THC;

  • outros canabinoides.

Entenda melhor no nosso conteúdo sobre Broad Spectrum, Full Spectrum e CBD Isolado.

Cannabis fumada antes da cirurgia é diferente de óleo de CBD?

Sim.

A via de administração é extremamente importante.

Cannabis fumada pode produzir alterações respiratórias e cardiovasculares que são particularmente relevantes durante uma cirurgia.

As diretrizes da ASRA recomendam adiar procedimentos eletivos por pelo menos duas horas após fumar Cannabis devido ao aumento do risco cardiovascular observado nesse período.

Além disso, o tabagismo de Cannabis pode aumentar:

  • irritação das vias aéreas;

  • resistência respiratória;

  • risco de complicações pulmonares.

Esses efeitos não devem ser automaticamente extrapolados para um óleo de CBD utilizado por via oral ou sublingual.

Por isso, informar como o produto é utilizado é tão importante quanto informar sua composição.

CBD pode interferir com anticoagulantes antes da cirurgia?

Essa é outra questão importante.

O CBD pode interferir em enzimas utilizadas por alguns anticoagulantes e outros medicamentos envolvidos na coagulação.

Por exemplo, há preocupação com interações entre CBD e medicamentos como varfarina devido ao metabolismo compartilhado por enzimas hepáticas.

Como cirurgias naturalmente envolvem avaliação de risco de sangramento, o uso de:

  • anticoagulantes;

  • antiplaquetários;

  • CBD;

deve ser informado à equipe médica.

Nunca suspenda um anticoagulante ou CBD por conta própria antes da cirurgia.

 

CBD pode afetar o fígado antes de uma cirurgia?

Em determinadas doses e contextos clínicos, o canabidiol pode provocar elevação de enzimas hepáticas.

Essa questão é especialmente relevante quando CBD é combinado com outros medicamentos que também podem afetar o fígado.

Por isso, dependendo do caso, o médico pode avaliar exames como:

  • ALT/TGP;

  • AST/TGO;

  • bilirrubina.

A necessidade depende da dose utilizada, condição clínica, medicamentos concomitantes e tipo de procedimento.

CBD pode ser tomado no dia da cirurgia?

Isso deve ser decidido pela equipe médica.

Não existe uma resposta universal.

O anestesiologista pode considerar:

  • indicação do CBD;

  • dose utilizada;

  • horário habitual;

  • via de administração;

  • presença de THC;

  • tipo de anestesia;

  • duração do procedimento;

  • risco de interação;

  • outros medicamentos.

Em alguns casos, o tratamento pode ser mantido. Em outros, pode ser recomendado ajuste ou suspensão.

Não decida sozinho tomar ou suspender CBD no dia da cirurgia.

Quantos dias antes da cirurgia devo parar o CBD?

Essa é uma das perguntas mais pesquisadas, mas atualmente não existe um número universal baseado em evidências robustas.

A literatura perioperatória apresenta recomendações diferentes.

Alguns autores sugeriram interrupções de aproximadamente:

  • 72 horas;

  • 7 dias;

  • até períodos mais longos para produtos orais.

Entretanto, as diretrizes da ASRA ressaltam que essas recomendações possuem limitações e que faltam evidências suficientes para estabelecer um intervalo único para produtos não fumados, como óleos de CBD.

Por isso, não utilize esses números como orientação individual.

O intervalo deve ser determinado pela equipe médica.

E se eu esquecer de avisar que uso CBD?

Informe a equipe assim que possível.

Não esconda o uso por receio de julgamento.

O anestesiologista precisa dessa informação para planejar o procedimento com segurança.

Informe:

  • nome do produto;

  • quantidade utilizada;

  • concentração;

  • frequência;

  • última dose;

  • forma de administração;

  • presença de THC.

Se possível, leve a embalagem ou uma foto do rótulo.

Se você tiver dificuldade para interpretar a concentração, veja nosso guia sobre como ler o rótulo de um óleo de CBD.

 

Posso voltar a usar CBD depois da cirurgia?

Também depende do procedimento.

Após uma cirurgia, podem ser utilizados medicamentos como:

  • opioides;

  • anti-inflamatórios;

  • anticoagulantes;

  • antibióticos;

  • sedativos.

Como o CBD pode interagir com alguns medicamentos, o momento de reinício deve ser discutido com o médico.

Além disso, náuseas, alterações gastrointestinais ou dificuldades para ingerir medicamentos podem influenciar a estratégia pós-operatória.

CBD interfere nos analgésicos usados depois da cirurgia?

Pode haver interação com determinados analgésicos.

Canabinoides podem compartilhar vias metabólicas com opioides como:

  • codeína;

  • tramadol;

  • oxicodona;

  • metadona.

Além disso, pode existir somatório de efeitos sobre o sistema nervoso central, principalmente sonolência.

Por isso, a equipe deve saber se você pretende continuar utilizando CBD no pós-operatório.

O que informar ao anestesiologista?

Antes da cirurgia, prepare estas informações:

1. Produto utilizado
Óleo, gummy, cápsula ou outra apresentação.

2. Composição
CBD isolado, Broad Spectrum ou Full Spectrum.

3. Concentração
Por exemplo, quantidade em mg/mL.

4. Presença de THC

5. Dose utilizada

6. Frequência

7. Horário da última dose

8. Motivo do tratamento

9. Outros medicamentos e suplementos

Esse conjunto de informações permite uma avaliação muito mais precisa.

Checklist para quem usa CBD e vai fazer cirurgia

Antes do procedimento:

  • informe o cirurgião;

  • informe o anestesiologista;

  • não suspenda o CBD sozinho;

  • leve a lista completa de medicamentos;

  • informe se o produto contém THC;

  • informe concentração e dose;

  • diga quando foi a última utilização;

  • pergunte quando poderá retomar o tratamento;

  • siga as orientações específicas de jejum.

O uso de CBD não substitui as regras de jejum pré-operatório.

Afinal, precisa parar o canabidiol antes de cirurgia?

Não existe uma resposta universal.

Pacientes que utilizam canabidiol devem informar a equipe cirúrgica porque CBD e outros canabinoides podem apresentar interações com medicamentos utilizados durante anestesia e no pós-operatório.

As diretrizes atuais recomendam rastrear o uso de canabinoides antes de procedimentos, mas reconhecem que ainda faltam evidências suficientes para definir um período único de suspensão para produtos de CBD.

Em alguns pacientes, interromper abruptamente também pode ser inadequado.

Portanto:

não interrompa nem mantenha o CBD por conta própria antes de uma cirurgia; confirme a conduta com o cirurgião e o anestesiologista.

Conclusão

O uso de canabidiol antes de cirurgia merece atenção porque a anestesia envolve medicamentos metabolizados por algumas das mesmas vias utilizadas pelo CBD.

Além disso, diferentes produtos de Cannabis podem conter CBD, THC e outros canabinoides em concentrações variadas.

Antes de qualquer cirurgia ou procedimento com sedação, informe:

  • produto utilizado;

  • dose;

  • concentração;

  • composição;

  • frequência;

  • horário da última administração.

A literatura ainda não oferece um prazo universal para suspensão de CBD antes de procedimentos eletivos. Portanto, a decisão deve ser individualizada pela equipe responsável.

 

Perguntas frequentes

Pode tomar canabidiol antes de cirurgia?

Depende do produto, dose, indicação e tipo de procedimento. Informe o cirurgião e o anestesiologista antes da cirurgia.

Quantos dias antes da cirurgia devo parar CBD?

Não existe um período universal respaldado por evidências suficientes. Diferentes recomendações já foram propostas, mas a decisão deve ser individualizada.

CBD interfere na anestesia?

Existe potencial de interação com alguns anestésicos e sedativos, mas a evidência ainda é limitada e varia conforme produto, dose e padrão de uso.

CBD pode ser usado no dia da cirurgia?

Somente conforme orientação da equipe médica. Não tome nem suspenda o produto por conta própria.

Full Spectrum interfere mais na cirurgia?

Full Spectrum pode conter THC, adicionando efeitos farmacológicos que precisam ser considerados pelo anestesiologista.

Posso voltar a tomar CBD depois da cirurgia?

O momento deve ser definido pela equipe médica, especialmente quando o paciente está utilizando opioides, anticoagulantes ou outros medicamentos no pós-operatório.

Preciso avisar o anestesista que uso canabidiol?

Sim. As diretrizes recomendam avaliação pré-operatória do uso de Cannabis e canabinoides, incluindo produto, frequência, quantidade, via e horário da última utilização.

 

Autor

Bruno Modesto