CBD no Esporte: Entre o Potencial Terapêutico e os Desafios Éticos da Prescrição
Nos últimos anos, o canabidiol (CBD) tem deixado de ser um tema marginalizado para se tornar pauta central na medicina esportiva e nas discussões sobre saúde do atleta. O artigo “Cannabidiol in Sports: A Brazilian Perspective” traz uma análise oportuna e corajosa: o CBD não é um agente que melhora o desempenho esportivo de forma direta, mas pode aumentar a disponibilidade física e mental para o treino, atuando sobre fatores determinantes como sono, ansiedade e recuperação muscular.
Esse estudo foi desenvolvido pelo IEP Remederi, sob coordenação do seu presidente, Prof. Dr. Aderbal Aguiar, e nasce como um dos principais desdobramentos da Jornada Olímpica de Webinários realizada em agosto de 2024 — uma série de encontros científicos que reuniu médicos parceiros da Remederi com forte atuação em medicina esportiva e que impulsionou a produção de conhecimento apresentada nesta análise.
Essa visão desloca o debate: o CBD não é um “doping disfarçado”, mas um recurso terapêutico potencialmente ergogênico de forma indireta — isto é, melhora o contexto biológico e psicológico que sustenta a performance.
CBD para atletas: a redefinição do cuidado
O estudo destaca uma mudança de paradigma: ao invés de focar apenas em substâncias que impulsionam o desempenho imediato, a medicina esportiva contemporânea começa a olhar para estratégias que otimizam a recuperação e reduzem a carga fisiológica e emocional do atleta.
No Brasil, onde o uso médico da cannabis ainda enfrenta resistência regulatória e cultural, essa discussão é especialmente relevante. O reconhecimento do CBD pela Agência Mundial Antidoping (WADA), desde 2018, abriu espaço para que atletas e profissionais de saúde explorassem seus benefícios dentro de um contexto ético e seguro.
Entretanto, como alertam os autores, a ausência de padronização e controle de qualidade nos produtos disponíveis é um obstáculo real. Estudos internacionais mostram que muitos produtos comercializados como “CBD puro” contêm traços de THC e outros canabinoides capazes de gerar resultados positivos em testes antidoping, expondo o atleta a riscos disciplinares e à perda de credibilidade profissional.
CBD na medicina esportiva, desafios de segurança e responsabilidade clínica
O artigo é contundente em um ponto essencial: a responsabilidade pelo uso seguro é sempre do atleta e do prescritor. O princípio da strict liability (responsabilidade objetiva) implica que mesmo uma contaminação acidental com THC pode gerar sanções.
Daí a importância de orientação clínica rigorosa, com preferência por produtos registrados na ANVISA e fabricados sob boas práticas farmacêuticas. No cenário esportivo brasileiro, essa precaução deve ser redobrada, já que a Resolução RDC 327/2019 ainda limita o acesso a produtos com comprovação analítica de pureza e rastreabilidade.
A formação continuada de prescritores, bem como a integração entre medicina esportiva, farmácia e nutrição, torna-se fundamental para reduzir o risco de eventos adversos e garantir que o uso do CBD ocorra dentro de parâmetros seguros e éticos.
CBD como alternativa aos opioides e anti-inflamatório
Com a proibição do tramadol em competições a partir de 2024, cresce o interesse por analgésicos não opioides. O artigo reforça o papel do CBD como possível substituto de fármacos com alto potencial de dependência, especialmente em esportes de contato e alto impacto, como rugby, atletismo e lutas.
Os mecanismos propostos incluem modulação da inflamação, ação sobre receptores serotoninérgicos e endocanabinoides, e melhora da qualidade do sono reparador — todos fatores que impactam diretamente a percepção de dor e o tempo de recuperação muscular.
Mais do que aliviar a dor, o CBD pode representar uma nova abordagem biopsicossocial para o cuidado esportivo, menos centrada na supressão de sintomas e mais voltada ao equilíbrio sistêmico do atleta.
O que ainda falta: evidências e padronização
Apesar do entusiasmo crescente, o artigo de Nery e colegas é prudente: ainda há lacunas importantes. Poucos estudos avaliam o uso do CBD em atletas de elite, e a maioria dos dados disponíveis vem de populações não esportivas ou de modelos pré-clínicos.
Três pontos emergem como prioritários:
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Estudos clínicos controlados em atletas, para determinar dose, tempo de uso e resposta específica por modalidade.
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Certificação e rastreabilidade de produtos, com selo de qualidade esportiva.
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Diretrizes nacionais de prescrição médica, integrando médicos, fisioterapeutas e nutricionistas.
Um chamado à responsabilidade e à inovação
O Brasil tem uma oportunidade ímpar de liderar essa discussão com seriedade. Temos pesquisadores, instituições e uma comunidade médica crescente disposta a explorar o potencial da cannabis medicinal de forma ética e científica.
Mas, para isso, é urgente superar o abismo entre regulamentação e prática clínica — garantindo acesso seguro, formação técnica e políticas de incentivo à pesquisa.
O CBD pode, sim, revolucionar o cuidado com o atleta. Mas essa revolução precisa vir acompanhada de transparência científica, responsabilidade médica e regulação eficaz.
O uso de canabinoides no esporte não deve ser encarado como uma moda ou um atalho para performance. O que está em jogo é um novo modelo de medicina esportiva, que coloca o bem-estar, a prevenção e a longevidade do atleta no centro da decisão terapêutica.
Prescrever CBD é mais do que ajustar uma dose: é repensar a forma como entendemos dor, recuperação e saúde no contexto esportivo.
O futuro da medicina esportiva brasileira pode — e deve — passar por essa mudança de paradigma.